Ensaio · Envelhecimento & Longevidade

O que é envelhecer no Brasil

Uma análise sobre a transição demográfica brasileira — e o que dez anos de documentários revelam sobre longevidade, desigualdade e reinvenção.

I
A virada demográfica — ampulheta com crianças e idosos, representando a transição demográfica brasileira

O Brasil está envelhecendo. Isso não é uma metáfora ou uma previsão distante — é o dado mais concreto da vida pública brasileira. Aparece nas manchetes, nos planos de saúde, nas reformas previdenciárias. O que ainda falta, talvez, seja confrontar suas consequências em toda a extensão: não apenas como dado estatístico, mas como transformação cultural. Em 2050, uma em cada três pessoas no país terá mais de 60 anos. Já em 2030, a população idosa superará, em números absolutos, a população de crianças com menos de cinco anos. Pela primeira vez na história, haverá mais avós do que netos.

A velocidade dessa transformação não tem precedente na história do país. O que nações europeias levaram um século para atravessar, o Brasil atravessará em quatro décadas — com uma diferença crucial: sem o mesmo nível de renda, infraestrutura e sistemas de saúde que amorteceram essa transição em outros lugares.

O envelhecimento populacional é, ao mesmo tempo, uma conquista e um desafio. Uma conquista porque reflete avanços reais na saúde pública, na nutrição, na redução da mortalidade infantil. Um desafio porque a cultura, as políticas públicas e o imaginário coletivo ainda não acompanharam essa realidade. Envelhecer bem no Brasil, hoje, exige navegar em uma sociedade que ainda precisa aprender a respeitar e compreender a história dos seus idosos.

Um desafio porque a cultura, as políticas públicas e o imaginário coletivo ainda não acompanharam essa realidade

II

A pergunta que ficou sem resposta por décadas

Envelhecer no Brasil é, antes de tudo, uma experiência profundamente particular — e profundamente desigual. Não existe um envelhecimento brasileiro no singular. Existe o envelhecimento de quem trabalhou com o corpo e chegou aos 70 com as articulações gastas. E existe o envelhecimento de quem teve acesso a cuidados preventivos, educação continuada, aposentadoria digna. São duas histórias vividas no mesmo país, com décadas de diferença biológica.

São duas histórias vividas no mesmo país, com décadas de diferença biológica

Por muito tempo, essa experiência ficou fora das câmeras — relegada a estatísticas, boletins epidemiológicos, previsões atuariais. A pergunta que raramente era feita era também a mais simples: como é, na prática, envelhecer aqui? O que pensam, o que sentem, o que temem e o que desejam as pessoas que chegam a essa fase da vida no Brasil?

"O envelhecer de cada um é tão singular que torna insuficiente qualquer fórmula comum que pretenda representar o Brasil."

Documentar essa experiência — com câmeras, não com planilhas — foi a aposta que orientou dez anos do meu trabalho. O resultado não foi uma resposta única. Foi uma série de perguntas mais precisas.

Set de filmagem de Envelhescência, 2014

III

Três eixos que definem o envelhecimento brasileiro

A reinvenção possível

A primeira coisa que chama atenção quando se começa a documentar o envelhecimento brasileiro é a quantidade de pessoas que chegam aos 60 anos e, pela primeira vez na vida adulta, começam a viver para si. Não é uma contradição — é uma consequência. Décadas de responsabilidades acumuladas — filhos, carreiras, obrigações — se afastam, e o que aparece no lugar é uma espécie de liberdade nova, muitas vezes inesperada, para a qual ninguém foi preparado.

O escritor Mário Prata cunhou o termo envelhescência para batizar esse fenômeno: uma fase com a intensidade transformadora da adolescência, mas em sentido inverso. Não uma abertura ansiosa para o futuro desconhecido, mas um retorno às próprias perguntas essenciais — quem sou eu, o que ainda quero, o que ainda sou capaz de criar.

Essa reinvenção não é universal. Ela depende de condições materiais, de saúde, de suporte afetivo e social. Mas o que os relatos revelam é que ela é mais comum — e mais funda — do que a cultura dominante, que tende a associar os anos após os 60 ao declínio, estava disposta a admitir.

Imagem do documentário Envelhescência, 2015

A aposentadoria como limiar

Se a reinvenção é uma possibilidade, a aposentadoria costuma ser o momento que a precipita — ou a inviabiliza. Ela é, ao mesmo tempo, uma conquista e uma ruptura. A perda do papel profissional desestabiliza identidades construídas ao longo de décadas. Quem somos quando paramos de ser o que fazemos?

O gerontologista Alexandre Kalache, ex-diretor do programa de envelhecimento da Organização Mundial da Saúde, é categórico: envelhecer bem começa antes dos 60. A aposentadoria não é um momento de preparação — é o resultado de décadas de escolhas e condições. O que fazemos antes dela determina, em grande medida, o que ela se torna.

Para muitos brasileiros, a aposentadoria ainda é vivida como ponto final. Para outros, está se tornando um ponto de inflexão — o início de uma fase que pode durar 20, 30 anos, e que exige um sentido que o trabalho já não oferece.

Imagem do documentário Além do Aposento, 2023

A desigualdade que o corpo carrega

Talvez o dado mais perturbador sobre o envelhecimento no Brasil seja também o menos discutido: dois brasileiros com a mesma idade cronológica podem ter corpos e mentes que diferem em décadas. A trajetória de vida — o acesso à educação, ao saneamento básico, ao trabalho digno, aos cuidados de saúde — inscreve-se no organismo de formas que a ciência começa, agora, a conseguir medir com precisão.

Uma pesquisa realizada em parceria entre a Faculdade de Medicina da USP e a Newcastle University, no Reino Unido, mapeou essa desigualdade com dados brasileiros. O resultado confirma o que qualquer observador do país já intuía — mas com a força do dado: o envelhecimento no Brasil não é um processo uniforme. É um mapa de injustiças acumuladas ao longo de gerações.

Isso não diminui a agência individual. Mas coloca em perspectiva os discursos que reduzem o envelhecimento saudável a uma questão de escolha pessoal. Ninguém escolhe a cidade em que nasceu, o saneamento do bairro onde cresceu, a escola que frequentou.

Imagem do documentário O Envelhecer de Cada Um, 2025

IV

O que Veranópolis ensina para São Paulo

A pesquisa mais rigorosa já realizada sobre envelhecimento no Brasil não acontece num grande centro acadêmico urbano. Acontece em Veranópolis, uma cidade de 24 mil habitantes na serra gaúcha, fundada por imigrantes italianos no século XIX, e reconhecida há décadas por concentrar uma proporção extraordinária de idosos saudáveis e longevos.

Desde 1994, o Instituto Moriguchi — fundado pelo Dr. Emílio Moriguchi, que retornou de um pós-doutorado no exterior com a missão específica de encontrar a cidade mais longeva do Brasil — acumula 30 anos de dados longitudinais sobre os mesmos indivíduos. São 13 teses de doutorado, 37 artigos científicos publicados, e uma compreensão crescente sobre o que faz com que pessoas simples, de origem trabalhadora e rural, cheguem aos 90 e 100 anos em condições que desafiam qualquer expectativa clínica.

Instituto Moriguchi — mais de 30 anos de pesquisa longitudinal sobre envelhecimento em Veranópolis

Os resultados de Veranópolis dialogam, com precisão notável, com o que pesquisadores das Blue Zones — as cinco regiões do mundo com concentração excepcional de centenários, identificadas pelos demógrafos Michel Poulain e Gianni Pes — encontraram nos outros extremos do planeta. Em Okinawa, na Sardenha, em Nicoya, em Ikaria, em Loma Linda: o mesmo padrão emerge. Atividade física integrada ao cotidiano — não a academia, mas a enxada, o cavalo, a horta. Espiritualidade como fonte de resiliência. Simplicidade como antídoto ao estresse crônico. Propósito — o que os japoneses chamam de ikigai, a razão de sair da cama — como elemento central da saúde.

E um dado que a ciência confirmou e Veranópolis já sabia antes de qualquer artigo: rancor mata. Pessoas que carregam ressentimentos crônicos têm maior mortalidade cardiovascular. Os idosos longevos da serra gaúcha — assim como os centenários de Icária, de Nicoya, de Okinawa — tinham em comum uma capacidade cultivada de perdoar. Não esquecer. Perdoar.

"Não só quero que o envelhecimento não seja um castigo — é a missão do Instituto. Buscar no Brasil o que é mais importante para o brasileiro envelhecer bem, com saúde e qualidade de vida."

— Dr. Emílio Moriguchi

O que Veranópolis revela é que a longevidade saudável não é um privilégio de países ricos ou de zonas geográficas exóticas. Ela emerge, repetidamente, em comunidades com condições modestas — onde o movimento é necessidade, não escolha; onde a comunidade é estrutura, não suplemento; onde o tempo tem um ritmo diferente do ritmo urbano contemporâneo.

Isso não significa que São Paulo precisa virar Veranópolis. Significa que os princípios que fazem Veranópolis funcionar podem, e devem, informar como pensamos as cidades, as políticas e os cotidianos onde a maioria dos brasileiros envelhece.

Cena do documentário Conversas nas Zonas Azuis — idosa em Veranópolis

V

Uma conversa que está apenas começando

O Brasil tem hoje uma crise e uma oportunidade que coincidem. A crise é real: um sistema de saúde ainda pouco preparado para uma população que envelhece em ritmo acelerado, uma cultura que ainda associa envelhecimento a declínio e invisibilidade, e uma desigualdade que determina, desde o nascimento, quem poderá envelhecer com dignidade.

A oportunidade é igualmente real. O Brasil tem histórias. Tem centenários na serra gaúcha que sabem de coisas que a medicina está apenas começando a medir. Tem paulistanas que se reinventaram aos 70 e encontraram, nessa fase, mais liberdade do que em qualquer outro momento da vida. Tem aposentados que descobriram, ao parar, que nunca tinham começado a viver de verdade. Tem pesquisadores que passaram três décadas ouvindo os mesmos idosos — e que hoje têm dados que o mundo inteiro quer ler.

Documentar essa experiência — com câmeras e microfones, mas sobretudo com escuta — é uma escolha política tanto quanto artística. É afirmar que essas histórias importam. Que o modo como uma sociedade trata seus idosos revela o que ela acredita sobre a vida humana.

O envelhecimento no Brasil não é um problema a resolver. É uma realidade a compreender — e, com sorte, a transformar. Essa conversa está, em muitos sentidos, apenas começando.

Gabriel Martinez em set de filmagem
Sobre o autor

Gabriel Martinez é cineasta nascido em Porto Alegre, radicado em São Paulo. Ao longo de uma década, manteve a câmera apontada para histórias que o Brasil costuma deixar de lado. De São Paulo a Veranópolis, de Okinawa à Sardenha, seus filmes percorrem diferentes territórios em busca de uma mesma pergunta: o que significa, na prática, envelhecer. Quatro documentários depois, o percurso segue em aberto. Envelhecimento é o tema — a escuta é o método.